sábado, 3 de maio de 2008

Tenho um rosto, logo existo

Apesar de me dar conta que o apego só atinge animais, não troquei o vaso. Quem mesmo disse que o homem é um animal social? É engraçado como tendemos a projetar emoções humanas em tudo que nos cerca. Além de ser o único animal que está sempre automaticamente buscando formas humanas em todas imagens que bate o olho – galhos de árvores, nuvens, desenhos abstratos – o homem concede alma a qualquer coisa que possua uma mínima semelhança a ele mesmo. É o que nos permite gostar do Mickey Mouse e ter pavor a ratos (Mickey foi meticulosamente desenhado com a cabeça grande demais para o corpo e olhos grandes em relação ao rosto para que tivesse sobre nós o mesmo encanto causado por bebês), o que fez Tom Hanks construir uma amizade com uma bola de vôlei com rosto, o que fazia com que eu e meus irmãos adorássemos um ser de pelúcia que não parecia animal algum: era apenas um bola com longos pêlos nos quais estavam grudados olhos, nariz e boca de lâminas de plástico. É de se perguntar como, mesmo dotados dessa generosidade em humanizar aquilo que nos toca, somos capazes de tratar tantos seres humanos, tão humanos quanto nós, como coisas, bichos ou números em estatísticas. Sorte têm os personagens da Disney.

Nenhum comentário: